segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Miragem


Trazes em tuas vestes as quimeras que um dia tive.

Levas o perfume inebriante de tua presença.

Deslumbrada, busco teus suspiros em meus sonhos.

Ensinaste-me o curso dos amores apaixonados.

Zombastes de meus lírios amarelos e do verde de minhas esperanças.

Ainda te vejo no horizonte infindo...

Dia após dia estive em teus recantos.

O tempo é meu algoz.

Dele espero o encanto do esquecimento.

Que caminhe ao meu lado no farfalhar das folhas outonais.

Sei que em recônditos espaços, em frias águas,

tu perpetuas meus anseios.

Incólume, transgrido as regras de cada momento.

Abraço a intenção fugaz de poder sentir

o quanto o esquecimento e a lembrança

são duas faces de uma mesma saudade.

domingo, 5 de agosto de 2007

O Poeta e a Poesia


Antes de tudo a poesia que expressa!

O que ela expressa?Ruminações subjetivas?

Sentimentos indescritíveis?

Tudo!?

Nada!?

Meu eu poético fala a esmo:

Dores
Amores
Injustiças
Saudades
Alegrias
Fantasias


[...]


Pode a poesia ser indiferente a algo?

Ou expressa o que o poeta sente?


[Silêncio...]


Foi-se o tempo em que era cerceada.

Agora, dizem, deve ser livre.


[Tateio o sentido da frase...]


Ouço um grito de liberdade.


[Ecoa!]


Desdobra-se no verbo.

Resta-me a certeza da poética desgarrada:

Mundana
Profana
Beata
Casta


[O que for!]


Indiferente nunca.

Um poeta não pode ser indiferente.

Se for, a poesia morre.

Ou ele, como poeta.

sábado, 4 de agosto de 2007

Escultora de Mim


Foto: Perla



Orvalhos amanhecem sobre mim,

numa intensa profusão de cores.

Desligo os minutos e me eternizo.

Entre lapsos, enxergo algas azuis.

Falésias estão a me esculpir.

Ornamento meus ais no seu barro.

Mergulho de vez em ondas agitadas.

Oscilo entre a superfície e o fundo.


Silêncio...


Paira uma névoa de saudade/dor.

Antevejo um sussurro de amor/alegre.


Relembro minhas formas incompletas...


Antes que me perca de vez nos abismos,

resgato meus traços

e me transformo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Persistência



Misturo as cinzas da terra com meu arado de ouro e canto incisivamente a melodia que brota em meu coração.

Transito entre dunas que existem no meu interior. Só encontro oásis ilusórios de uma felicidade inexistente.

Desfolho as camadas de teu ser - no – mundo,

vislumbro orvalhos congelados pela tua atmosfera etérea.

Cavalgo ondas de quinze metros...

Deslizo nos vales de teus cabelos em busca dos mistérios que te circundam.

Realizo acrobacias ao vento para me equilibrar no fino arame que divisa a loucura da saudade com a lucidez permitida pelos que não sentem nada.

Artista do mundo sou eu.

Enfrento tempestades do ontem no intuito de ser salva pelos relâmpagos que iluminam meu hoje.

Fragmentos que junto e coloco no baú antigo, secular.

Lugar onde guardo os cacos das infindas vezes que fui rudemente partida pelas pontas afiadas, cortantes, tétricas, gélidas que são o substrato de meu idílio.

Incólume, sigo em minha labuta diária, mas não descanso dessa arte insana e efêmera de catar estrelas nos mares.

Oscilo entre ser feliz e ter o coração partido em fractais,

que te completam.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Poema Melancólico


Foto: Paloma



Silenciosamente vago por bosques desérticos, onde árvores da saudade sussurram melancolias à flor da pele.

Passo por secos regatos banhados com lágrimas de fel e mergulho nas areias rubras de suas margens.

Uma ninfa toca a harpa que antes foi motivo de lúdicas canções, doces acordes.

Sacio a fome no vento macio que me acaricia a pele.

Quisera eu ser saciada pelas quimeras que moram num lugar não lembrado pelo tempo.

Matar a sede, me deliciar com o suor que evapora das palavras ardidas que cultivo nos pensamentos mais obscuros.

O bosque desértico pelo qual passeio é o lugar do esquecimento.

Rasuras e reminiscências do intenso querer não querido.

Rebuscada morada de idílios vãos, utopias depreciadas e insignificantes lamúrias.

Casa das dunas nômades que representam e se assemelham às idas e vindas infindas que a sorte nos ensina.

Moro aqui, nas sombras que me rodeiam.

Sorrio para os espectros que me circundam.