segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O que virá



"É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

Carlos Drummond de Andrade





O único começo que admito na vida:

A própria vida.

O resto não passa de uma aquarela

Dissimulada de arte pós-moderna.




E que a continuidade da vida em 2008 seja excelente para todos!







Imagem: Aquarela

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Sou vida


Carrego no peito um coração que pulsa e uma esponja que suga o mundo.

Sou celeiro dos pedaços colhidos ao longo das trilhas percorridas


: fruto das escolhas feitas na bruta certeza de estar aqui.


Por vezes, sou os fragmentos juntados.


Só assim existo.


Despedacei-me tantas vezes fossem necessárias e tantas outras erigi o molde mim.

Fui correnteza bravia arrastando anseios guardados em ermos espaços


: meu e de outros.


Também laguna,

quase isso e aquilo.


Agridoce, já fui.


Ave faminta em jardins de esperanças, suguei o néctar de cada flor para nutrir ilusões.

Experimentei misturas que brotam no seio vida.


Fui vida.


E porque ousei ser e não ser


[negando a homogeneidade de meus contornos]


suplantei vicissitudes.


Hoje sou paiol.


Pulsante, sorvo a concretude liquefeita,

absorvo e regurgito ais, alegrias.


Sou vida.







Imagem: Sophia Douma

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Reflexões


o que é a vida se não um fragmento de ilusão que se liquidifica

como som de ecos plantados na garganta ouriçada

por todos os brados lançados ao vento

um vão momento que traz saudade de?


e bate bate bate bate tanto que faz tum tum tum

no peito oco onde o mundo se aninha tão sutilmente

que nada há que alente anseios perdidos no tempo

que,desdobrado, molda caricaturas de quimeras loucas


eu Messalina de todas as eras construídas nas pegadas dos dias

desprezei amores pudores rancores cultivei sementes

quereres por assim dizer mal quistos esquisitos

e neguei segurança onde quer que fosse cais


hoje arranco dejetos das entranhas do nada que sou

porque esse vazio é prenhe de tudo que alimente a falsa fome

que consome esse quase mundo mudogritante brotado nos muros erigidos

por tantas batalhas perdidasvencidas que fizeram de mim isso que sou.

o que sou?

sábado, 1 de dezembro de 2007

(Á)vida


a vida

ávida

dividida

dá vida

à vida

vivida


dívida

da vida

ávida:


a vida

viva







Imagem: Eugen Demeterca

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

O que brota


Sei que me perdi em lindos olhos castanhos

Colados na face de alguém estranho

E pude ver o mundo cor de chocolate

Azul, vermelho, verde-abacate


Sei que deslizei em lindos sorrisos

Que me mostravam, no horizonte, paraísos

Recheados com som de amanhecer

Tudo isso sim, pude ver!


Sei que além de tudo existe

Algo a germinar e que resiste

Às intempéries dos dias vividos

Só porque vi aquele lindo sorriso


Sei, antes de tudo, que a boca de mel

Canta e encanta qual um menestrel

A sussurrar em meu ouvido todo seu escarcéu

E hei de ficar tonta, louca, ao léu


E se é pra ensandecer no turbilhão

Desse querer, que venha meu coração

Sem medo, disposto a tudo viver


Pois a vida só é merecida para quem se lança

Nas doses alucinantes dessa chama

Que brota, em nós, a cada amanhecer







Imagem: Florian Hoenig

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Tuas mãos


São mãos de carícias

: afagos aconchegantes

abraços calorosos


São mãos de fogo

: desejos indizíveis

luxúrias gritantes


São mãos úmidas

: ensopam o corpo

evaporam prazeres


São mãos enormes

: vastas como as planícies

vagas como os hiatos


[entre os dedos]


São mãos de tentação

: destilam essências

famintas, convidativas


São mãos que

roubam a sensatez

propagam vontades camufladas,

atiçam ébrios quereres.


São mãos, de perdição.







Imagem: Eugeny Kozhevnikov

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Alucinógeno


Era pra ser tomado a conta-gotas

mas quando vi

havia ingerido além da dose recomendada

de ti.

Agora essa overdose de olhos cor de mel

me faz ficar vendo céu

onde só existe fogo.

Inferno!



Imagem: Steffen Drache

sábado, 17 de novembro de 2007

Nostalgia



Mastigo minutos

lambendo feridas brotadas no tempo

em que te ausentaste de mim


Degusto a falta do azul de teus olhos

no céu claro que me ofusca


Cega na vastidão das nuvens

tenho miragens


Contemplo formas

: traços fugazes que se delineiam

ao passarem sobre minha ausência


Sou lacuna em mim

ao vislumbrar tua face

no brilho da lua cheia de tudo

vazia de anseios


E para castigar a nós


[eremitas do prazer]


devoro horas acres do agreste que me perfaz

e

busco na cisterna

aquele tudo que faltou


: teu corpo no meu





Imagem: photo.net

terça-feira, 13 de novembro de 2007

E agora?




Quando via a via

Que indicava teu acesso

Havia sempre um cruzamento

E me perdia.









Imagem:Giedrus Neturiauskas

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O que foi


Passado é sangue

coagulado nas crostas

fincadas na memória.





Imagem: Giedrius Neturiauskas


sábado, 10 de novembro de 2007

Disfarce



Saudade.

Dissimulada veste que encobre

A ausência.




Imagem: Rene Asmussen

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Hoje é dia de: ControVersos.
Um blog erótico.
Onde os prazeres são pensados e escritos em verso e prosa.
Eu estou lá.
Não perca.
É só clicar no nome.
Vem!



quinta-feira, 8 de novembro de 2007

A Festa


Vesti-me de anseios

para bailar na festa

das bodas de ouro

de tua partida


Enfeitei os cabelos

com os trapos

que nunca vieste buscar


Untei a boca

[batom de fel]

seiva da saudade


Tudo para comemorar

as bodas de ouro

de tua partida


Não fui cinderela ou borralheira

: gata noturna a te caçar nas esquinas


Não eras príncipe nem algoz

: Aquele que tatuou meu corpo e fugiu


Adornei-me com teus resquícios

para não esquecer de comemorar

tua ida


[presença ausente]


que não mais almejo.






terça-feira, 6 de novembro de 2007

Do Amor


I


O amor se alimenta da fome.


Por isso te quero incompleto


: falta presente a nutrir meus dias,

presença ausente em noites insones,

lacuna constante no meu corpo.


Istmo que liga desejo e sabor,

suspiro suspenso.


Sequioso de tudo sem nada ter,

inconstância absoluta,

irrestrito querer.


O amor se alimenta da fome

só pra continuar a amar.


II


Saciado, perde o viço.

Completo, se anula.

Seguro, se ausenta.


O amor se alimenta da fome

de ser amor,

nada mais.



Imagem: photo.net

domingo, 4 de novembro de 2007

Cerração


É de pó a névoa que turva o olhar


: resto da ida tardia

rumo ao ocaso de teu amor.


É granulada a saudade que ficou

no sumir de tua manhã.



Imagem: Lori Crewe

sábado, 3 de novembro de 2007

Não vi os olhos teus




Não vi os olhos teus

No dia em que partiste

Sem me dizer adeus

Ou um lamento triste.


Havia de ser dia negro,

Sem luz. Aurora fugidia,

Ocaso sempre efêmero

De minhas parcas alegrias.


Crepúsculo de meus idílios!

Hoje, tu és canto sem melodia,

Loucos desejos perdidos.


E eu, mar em rebuliço, arredia.

Desde o dia em te foste,

Em busca de insanas fantasias.






Imagem: Katerina Lomonosov

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Hoje estou aqui: ControVersos. Um blog erótico. Que fala de amores e humores, que risca a alma com um fio de sangue, que faz estremecer , que trava a boca. Aberto à participação de quem traga no olhar maduro uma nesga de desejo, um respirar mais ofegante, um brilho mais úmido na palavra.Passa lá. É só clicar no nome. Você não vai se arrepender.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

O que quero hoje


Hoje não vou falar das estradas

que me fazem perder o rumo,

nem das falésias onde aprumo

o salto pro fundo de mim.


Hoje não vou descrever curvas

ou retas que dedilham a

circunscrição dos espaços que

me habitam.


Hoje não reverbero desejos,

resplandeço volúpias

: fonte de inspiração.


Hoje não grito a mudez da ausência,

eco da saudade, sibilo constante

nas lapelas que absorvem a cor do mundo.

Nada de ode à lascívia ou luxúria.


Hoje quero poesia engajada, rabiscada

na cruel desigualdade em

que meus pares perecem.


Canto de revolta que denuncia

o furto do riso das crianças,

fome mísera que assola o povo.


Quero riscar no asfalto quente um F.


Assim, quem sabe, a fartura chegue

e o futuro se alegre ao contemplar

essa poeta que grita em versos

a vinda de um mundo melhor.





Imagem: Nuno Lobito

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Auto-retrato




Do que escrevo:

resquícios do passado

quereres não realizados

saudade do que não foi.


No que escrevo:

verbo rasgado, tesão

fogo, paixão

intensidade assumida.


Como escrevo:

amargo na saliva

breu nos olhos verde-oliva

ar(dor) que fere.


Em tudo que escrevo:

alegria que irradia

metáforas, analogias

necessidade de falar.


Escrevo:

escancaro, abro

poema auto-retrato.




Imagem: Fernanda Passos


terça-feira, 30 de outubro de 2007

Aridez





Minha cisterna secou
Na estiagem prolongada
De tua ausência.


domingo, 28 de outubro de 2007

Andança


Os pés rachados na errante

procura por ti


[sedentos]


sugaram a seiva

do jardim de lembranças que plantei.


E as ilusões


[agora pó]


dissecadas nos ares

quentes de meu caminhar


[com o auxílio do vento]


disseminam o aroma das flores

que adornaram as quimeras

cultivadas em nós quando

recheávamos crepúsculos com

paixão e brindávamos a alvorada

nos copos moldados durante balé ensaiado

ao som do roçar de nossos cabelos.


Mumifiquei essa fantasia almejando

a umidade que


[um dia]


há de chegar com broto de sorriso e

semente de tua volta.


Nesse esperar dissoluto,

diluo o medo, decoro a alma com espelhos

que perpetuem imagens do tempo onde

o viço irradiava dos poros dilatados,

irrigando canais nos afluentes que interligavam

tua vontade e meu desejo.


Assim, espanto a desertificação que me assola

nos oásis idílicos que o reflexo faz germinar.



Imagem: Miguel Delgado e Silva

sábado, 27 de outubro de 2007

Volta(a mim)


Nas linhas de tua vastidão

rastros deixados no pó

da saudade de ontem


[quando estavas comigo]


A fuligem da distância impede que te veja


[mundo de anseios]


Por isso fostes

: descobrir ancas onde pudesses

adubar desejos enraizados na carne

germinar lascívia em outros corpos


Passa o tempo....


[retinas límpidas após

o breu que tua ausência deixou]


Parei no acostamento da certeza,

sentei no banco da coerência,

peguei carona com a lucidez.

Voltei para encontrar o que deixei

quando decidi te perseguir


: retornei a mim.



Imagem: Wojtek Aleksandrowicz

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Sexta é dia de Controversos.
E é lá que estou. Você vai perder?
Eu, se fosse você, não perderia por nada.
É só clicar no nome do Blog. Vem!

O Passista



Desatina no samba louco

feito pro teu gingar



Desafina no ritmo composto

pra ti ver bailar



Sou poeta ensandecida

nas passarelas de tuas curvas



Tu, estrada de desvario

pro destino de meus versos






Imagem: Piort Kowalik

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Metamorfoseada


Flagelo teu corpo

com os fios de meus cabelos

e amarro teus pulsos na língua

[de duas pontas]

que lanço em perigo


Serpente dissimulada,

pico essa carnadura

[alucinante]

destilando veneno

nos canais te rasgam


Paraliso teu querer

impedindo arroubos

ladrões de meu sono


Só de mau

chupo tua alma,

num beijo animal



Imagem: Giuliano S

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Eterno Retorno




Ilha de desejos carnais,

ponta sobre abismos abissais

alicerçada em vertigens.

Em ti morro, outros vivem.


Sinuosas são tuas curvas!

Viajo em noites de lua,

análogas à vastidão,

envolta no teu clarão.


Louca - puro desatino -

sigo esses caminhos.

Ressuscito pra te ver .


Nos grãos de tua carne,

tripudio da eternidade

e vivo, de solidão.





Foto: Glen Dealtry